Eu, cadeirante, em Orlando – Parte I

E a nosso convite, Juliana, descreve em detalhes como foi sua viagem a Orlando, tudo isso com a ótica de uma cadeirante!

Ela vai nos contar tudo sobre acessibilidade em Orlando em 4 partes.

Então, não percam as matérias! Confiram abaixo a parte I

Eu, cadeirante, em Orlando – Parte I
Por Juliana de Castro

Voltar a Orlando depois de minha primeira experiência há 22 anos era um desejo quase incontrolável!
Afinal, a experiência vivida aos quinze anos de idade foi simplesmente indescritível! O parque e as novas atrações foram fatores que me ajudaram a decidir. Mas havia um desafio a mais, quase insuperável em minha imaginação. Viajar “sozinha”, na minha nova condição física, e para outro país era algo inimaginável até pouco tempo, acreditem se quiser!

Mas consegui superá-lo!

Desde que me tornei cadeirante, há sete anos, passei a ter muita insegurança em diferentes situações e, quase sempre, não fazer nada sozinha, sem meus pais, irmãs ou algum familiar que conhece minhas limitações. Embora use a cadeira de rodas, não tenho paralisia e sim, paraparesia. A minha deficiência é física, mas tenho sensibilidade total e consigo ficar em pé sozinha e andar poucos passos.

Seis meses antes… A minha primeira atitude foi procurar uma agência e orçar uma excursão. A minha primeira experiência foi tão maravilhosa que gostaria de proporcionar, aos meus sobrinhos, Henrique e Letícia, o mesmo que senti naquela época.

Infelizmente, a nossa moeda não é tão valorizada quanto gostaríamos e ir de excursão, levando dois adolescentes, ficou fora de questão. Resolvemos, então, montar um pacote que sairia bem mais em conta. A minha maior preocupação era o fato de ser a única adulta responsável por resolver tudo em outro país sendo cadeirante!
Depois de muito pesquisar e “fuçar” na internet – bendita internet na vida de um cadeirante!- resolvi montar o pacote de viagem por conta própria. Além de economizar bastante, peguei muitas dicas com o pessoal do grupo Eu em Orlando, no Facebook, o que facilitou muito pra mim.

O hotel foi reservado diretamente no site da Disney, procurando por um quarto que tivesse chuveiro e não, banheira, como a maioria. Resolvi ficar dentro da Disney porque cinco dos onze dias iriam ser nos parques da própria Disney, assim, podíamos utilizar os ônibus que levam e buscam nesses parques. O ideal seria alugar um carro, mas ele precisaria ser adaptado e eu teria que criar coragem para dirigir em outro país também!

Depois de reservar o hotel, comprar os ingressos para os parques e as passagens aéreas, foi a vez de comprar ingressos para o jogo de basquete da NBA, presente que dei para meu sobrinho-afilhado, que faria 17 anos lá.
Pelos sites das agências, havia inúmeras opções com diferentes preços de acordo com o jogo e local onde gostaríamos de ficar, mas em nenhum deles, informava sobre a questão da acessibilidade. Mais uma vez, o melhor foi entrar em contato diretamente com o site do Orlando Magic, onde haveria o jogo.

Através de e-mails, conversei com um funcionário que me ajudou bastante, inclusive, me mandou um link para eu visualizar o lugar onde sentaríamos.

Tudo providenciado, agora precisávamos esperar seis meses para a viagem. A espera foi longa, mas valeu cada minuto!

Chegado o dia da viagem confesso que estava bem preocupada em como seria ficar nove horas sentada no avião. Havia viajado para Europa uma única vez, como cadeirante, mas fui de primeira classe! Desta vez, não só pelo valor, mas queria vivenciar cada minuto dessa aventura, ao lado dos meus
sobrinhos. Antes de comprar as passagens, pesquisei qual empresa aérea oferecia melhor conforto em termos de espaço nos assentos. Fomos pela Latam e foi bem tranquilo para mim.

Chegamos a Orlando à noite e, após passarmos pela alfândega, pegarmos as malas e descobrirmos para onde ir dentro daquele aeroporto enorme, só consegui me tranquilizar e perceber que havíamos chegado, quando entramos no ônibus para o hotel.

O ônibus não era acessível, mas antes de embarcar, a atendente me perguntou se eu conseguia subir os degraus. Acredito que, se não conseguisse, teríamos que esperar outro ônibus que fosse adaptado. Estava tão feliz e tão cansada que encarei os cinco degraus numa boa!

No hotel (All Star Music Resort), para minha surpresa, apesar de reservar um quarto acessível para cadeira de rodas, o piso era de carpete! Isso dificulta muito na locomoção. Além disso, não havia área de circulação, ou seja, não tinha como manobrar a cadeira, precisava ir num sentido e voltar de ré ou manobrá-la dentro do banheiro. As camas também não são ideais, pois são altas, o que torna difícil para subir nelas. Como eu consigo movimentar um pouco, para mim não foi uma tarefa impossível de realizar sem ajuda, mesmo assim, foi difícil.

Nada disso me deixou chateada ou incomodada, embora as primeiras impressões quanto à acessibilidade não tenham sido precisamente positivas. Este é um problema do dia-a-dia dos cadeirantes!

Nessa mesma noite, ou melhor, madrugada, fomos ao supermercado comprar algumas coisinhas para nosso café da manhã. Pedimos um táxi e fomos às compras.

No dia seguinte, logo cedo, fui receber o “scooter” que aluguei. Mais uma dica que peguei com um membro do grupo Eu em Orlando. Dentre os quais pesquisei preços, o mais barato ainda levava e buscava o ECV (Electric Convenience Vehicle) no hotel. Mal sabia eu, que iria me apaixonar por aquele triciclo vermelho!!!

Nunca havia andado em um, mas logo fui adaptando e já saí para o primeiro passeio com ele. Pedimos na recepção do hotel que solicitassem um taxi grande, pois eu iria com o ECV.

Minha alegria se completou quando o motorista disse que eu não precisava descer do triciclo para entrar no carro… havia uma rampa de acesso.


Já estava me sentindo no mundo da acessibilidade! (risos)!!!

Fomos ao shopping Florida Mall e depois ao Outlet Premium Vineland. Todos dois super acessíveis, com elevadores e rampas. Nas lojas menores era um pouco mais difícil circular, mas com jeitinho dava para passar. As maiores tinham escada e rampa de um nível para o outro, por exemplo, a Adidas.

Passamos o dia no outlet e eu me senti “a independente”. Meu sobrinho, que sempre me ajuda com a cadeira, pode fazer suas compras sem se preocupar comigo.

No segundo dia fomos para o Epcot. Organizei nosso roteiro de acordo com as Horas Mágicas dos parques da Disney, então, podemos entrar uma hora antes do parque lotar.

Logo que entramos no parque, vimos uns mapinhas com informações em diferentes idiomas e também de acesso adaptado para diferentes restrições que possam existir.

Há também, informações sobre locação de scooters, mapas em braile, equipamento de áudio para narração de shows, onde estão as vagas reservadas no estacionamento, banheiros acessíveis, saída de emergência etc.

Link: https://secure.parksandresorts.wdpromedia.com/media/wdpro-assets/parks-and-tickets/destinations/epcot/Epcot_FOTA_011218_Por.pdf

Mapas como este, estão na entrada de todos os 04 parques da Disney, nos 02 parques da Universal e também no Sea World e Bush Gardens.

O Epcot é um parque bem amplo e bastante acessível, o que facilita a circulação de cadeira de rodas e/ou ECVs.
Além de visitar alguns pavilhões dos países que tínhamos mais interesse, escolhemos as atrações que mais gostaríamos de ir: Soarin’ Around the World – um simulador de asa deltas sobre diversas maravilhas do mundo. Nesse brinquedo é preciso sair da cadeira ou ECV e sentar na cadeira da atração.

Depois, fomos para o Frozen Ever After. A atração começa nas docas de Arendelle, como no filme. É preciso sair da cadeira/ECV para sentar a bordo do barco e “adentrar a floresta congelada pelas curvas das águas”.

Nesse mesmo pavilhão, da Noruega, é possível encontrar com as irmãs Anna e Elsa. A atração Spaceship Earth é dentro do globo prateado do Epcot. É uma viagem no tempo que nos mostra a história das comunicações desde a Idade da Pedra à era digital. Deve passar para uma cadeira de rodas padrão e, em seguida, para o veículo de passeio.
Outra atração muito procurada é o Test Track. Nela, você cria um veículo conceitual virtual e depois pode dar uma volta de alta potência neste brinquedo com quase uma milha de extensão e picos de velocidade de 65 milhas por hora. É emocionante!


Já no final da noite, existe um show que combina música, luzes, lasers e fogos de artifício, realizado na lagoa do World Showcase: Illuminations. Para assistir, existe uma área reservada para deficientes físicos e acompanhantes. Sem dúvida, um dos shows mais bonitos de Orlando, que encerram a noite.

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E a saga da Juliana não para aqui! Acompanhe aqui no nosso site o restante da experiência! Os posts são semanais.

Leia a parte II: http://www.euemorlando.com.br/eu-cadeirante-em-orlando-parte-ii/

Leia a parte III: http://www.euemorlando.com.br/eu-cadeirante-em-orlando-parte-iii/

Leia a parte IV: Em breve

Texto e imagens de Juliana de Castro – Direitos reservados.

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